
A história da cannabis é, antes de tudo, a história da humanidade.
Muito antes de virar tabu, polêmica, lei, remédio ou cultura, ela já estava lá — crescendo ao lado das primeiras aldeias, seguindo caravanas, atravessando desertos, navegando mares, inspirando espiritualidade e sustentando economias inteiras.
A cannabis é uma sobrevivente. E o mundo inteiro carrega sua marca.
Vamos voltar no tempo e sentir essa caminhada.
Ásia Central – o berço da planta
A origem da cannabis, comprovada por registros botânicos e arqueológicos, aponta para a região da Ásia Central, entre o atual Cazaquistão, Mongólia e o oeste da China.
Ali, há mais de 10 mil anos, grupos seminômades já utilizavam a planta para:
- fibras (tecidos, cordas, ferramentas)
- sementes como alimento (ricas em ômegas)
- medicina (chá, decocções e unguentos)
- rituais espirituais
A cannabis já nasceu plural — útil, sagrada e versátil.
China Antiga – medicina, agricultura e soberania
Por volta de 2800 a.C., o imperador chinês Shen Nong, considerado o pai da medicina tradicional chinesa, registrou o uso terapêutico da cannabis no Pen Ts’ao Ching, um dos textos médicos mais antigos do mundo.
A planta era usada para:
- dores
- reumatismo
- distúrbios menstruais
- malária
- cuidados pós-parto
- transtornos mentais leves
E mais: os chineses dominaram o uso industrial do cânhamo, produzindo:
- roupas
- cordas
- papel (um dos primeiros papéis da história era de cânhamo!)
Na China, a cannabis era soberania: saúde, tecnologia e cultura.
Índia – espiritualidade, medicina ayurvédica e ritualidade
Da China, a planta se espalhou para o sul, chegando à Índia, onde ganhou um peso espiritual profundo.
Nas tradições hindu e tântrica, ela é citada como:
- “a planta que liberta a mente”
- “a alegria de Shiva”
O bhang, bebida à base de folhas de cannabis, é usado em rituais até hoje.
Na Ayurveda, ela aparece como:
- analgésica
- digestiva
- sedativa
- anti-inflamatória
Na Índia, cannabis virou ponte entre cura e transcendência.
Oriente Médio – grandes impérios e o nascimento do hashish
As rotas de comércio levaram a cannabis para o Irã, Iraque, Síria e toda a região persa.
Foi ali que surgiu o hashish, a forma concentrada de resina que se tornaria famosa séculos depois.
No mundo árabe medieval, poetas, médicos e filósofos registraram usos terapêuticos e recreativos.
Grécia e Roma – medicina clássica e farmacopeias antigas
Gregos e romanos adotaram a planta para:
- dores
- inflamações
- ferimentos
- dores de ouvido
- cólicas
Autores clássicos como Dioscórides e Plínio, o Velho escrevem sobre a cannabis com naturalidade — ela era parte da farmácia mediterrânea.
África – fibra, alimento e cultura ancestral
Povos africanos integraram o cânhamo a práticas agrícolas, rituais de cura, construção e medicina popular.
Algumas comunidades usavam a planta em cerimônias xamânicas; outras como:
- alimento
- fibra para tecelagem
- erva medicinal para partos e dores
A cannabis se tornou parte viva da cultura ancestral africana.
Europa Medieval – entre o indispensável e o perseguido
Durante séculos, o cânhamo foi planta obrigatória em quase toda a Europa, usado para:
- velas de navio
- cordas
- roupas
- papel
- óleo
Governos exigiam cultivo obrigatório devido à importância naval.
Mas no final da Idade Média, com o aumento de discursos moralistas, a cannabis começou a ser vista com suspeita — embora ainda indispensável economicamente.
América – colonização, agricultura e contracultura
A planta chegou ao continente americano com colonizadores e escravizados, sendo cultivada para fibra em países como:
- Brasil
- Estados Unidos
- Chile
- México
- Colômbia
No século XX, especialmente nos EUA, campanhas moralistas e racistas transformaram a cannabis em alvo, iniciando a “Guerra às Drogas”.
Décadas depois, os movimentos de direitos civis e a contracultura reacenderam seu uso medicinal e cultural.
Século XX – Ciência redescobre o que as civilizações já sabiam
Entre os anos 1960 e 1990, cientistas como Raphael Mechoulam identificaram:
- o THC
- o CBD
- o sistema endocanabinoide
E provaram que a cannabis interage com um sistema fisiológico fundamental.
A planta renasce não pela cultura, mas pela biologia.
Século XXI – Da criminalização à regulamentação global
Hoje, dezenas de países já regulam:
- uso medicinal
- uso adulto
- cultivo industrial (cânhamo)
- pesquisas e fármacos
A planta voltou a ocupar um lugar de respeito:
- na ciência
- na economia
- na indústria
- na agricultura
- no bem-estar
A história está se repetindo — mas agora com laboratório, dados e consciência.
Conclusão: A cannabis não é moda. É legado.
Ela está com a gente desde o início.
Curou, vestiu, alimentou, inspirou e conectou culturas inteiras.
Foi proibida, perseguida, silenciada — mas nunca exterminada.
E hoje renasce como símbolo de ciência, saúde e liberdade.A cannabis é mais do que planta.
É história viva — e o futuro está florescendo bem diante dos nossos olhos.